sábado, 24 de dezembro de 2016

O saldo de um desastre


Por Erick Ferreira


               UM DOS FATOS QUE CORROBORARAM a deposição de Dilma Rousseff em agosto deste ano por "crime de responsabilidade fiscal" foi a realização de operação de créditos entre a União e o Banco do Brasil no âmbito do Plano Safra em 2015, violando o art. 36 da Lei de Responsabilidade Fiscal que ipse litteris declara:
"É proibida a operação de créditos entre uma instituição financeira estatal e o ente da federação que a controla, na qualidade de beneficiário do empréstimo".
Em outras palavras, significa que o governo não pode emprestar dinheiro de um banco publico. 

E este empréstimo foi feito para que finalidade? Para falsear um aumento na contabilidade fiscal (que não aconteceu como esperado) e assim, alcançar um superávit primário ideal. 
O valor retirado ilegalmente do Banco do Brasil, assim como da Caixa Econômica Federal e do BNDES, segundo o TCE, foi de mais de 40 bilhões de reais.


Pois bem, as consequências destas operações fraudulentas não tardaram em vir a tona. 
O Banco do Brasil recentemente anunciou que irá fechar mais de 400 agências em todo país. Aumentando, assim, de forma astronômica o numero de desempregados que se formou durante o governo Dilma e continua a crescer em ritmo acelerado após o impeachment.

Não obstante a face cruel deste governo e seus frutos podres, uma multidão de idiotas uteis, tão fora da realidade quanto suas utopias, repete e crê piamente que "um governo legitimo foi deposto" e que o processo de Impeachment foi um "golpe parlamentar." Acusações que beiram a loucura! Sintomas que nos remetem a uma patologia mundialmente conhecida como "Síndrome de Estocolmo", que consiste na paixão da vitima por seu agressor.
Atitudes que nos deixam ainda mais estarrecidos quando vemos estes indivíduos, -- que repetem em uníssono jargões que foram condicionados a repetir por outros marxistas, igualmente alienados -- afirmarem de cabeça erguida que "pensam criticamente". Um verdadeiro insulto à inteligência e às pessoas que aprenderam a pensar criticamente a sociedade e a si mesmos.
Se ao menos se reclusassem em seus devaneios, mas saem às ruas para defender o governo que os roubou e a ilusão na qual foram condicionados a crer. 

Há sinal mais claro de alienação do que os manifestos por essas turbas trajadas de vermelho? Acredito que não.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Porque você precisa ler George Orwell


Por Erick Ferreira



George Orwell em sua obra seminal, "1984", cunhou um termo que viria se consagrar nos meios intelectuais e se personificar com toda a fidelidade na postura e no discurso dos agentes modernos da revolução. O duplipensar, que nas palavras de Orwell, resume-se como a “habilidade que alguém possui de reter na mente, ao mesmo tempo, dois conceitos absolutamente contraditórios, e aceita-los, ambos, como verdadeiros”. Uma característica que se tornou comum na conduta  revolucionária. 

Quem não se sente perplexo ao ver o deputado Jean Wyllis defender com fervor a autonomia e o direito de crianças de 9 anos de idade para “mudar de sexo”, ao mesmo tempo em que repudia veementemente a diminuição da maioridade penal, servindo-se do frágil argumento de que o infrator de 16 anos não possui consciência para responder por seus crimes. Atitude semelhante que se verifica em Marilena Chauí, a sacerdotisa mor da tertúlia marxista brasileira, que de forma visceral despejou seu ódio contra a classe média, esquecendo que por seu obeso salário, também faz parte dela. O mesmo comportamento que a esquerda em geral tem em face da questão do desarmamento, contra o qual, repete ad nauseam “que a liberação das armas pode aumentar o número de homicidios”; opinião que se inverte quando se trata da liberação da maconha, neste caso, ao contrário do argumento anterior, a liberação da erva pode significar a diminuição do consumo e do tráfico. São contradições tão grotescas e escancaradas como estas que fazem do establishment nacional um correspondente fiel ao "Ministério da Verdade" (1) do romance de Orwell. 

E o mais surpreendente deste turbilhão de contradições repetidas de forma incessante é que os indivíduos que o proferem, o fazem conscientemente, com a firme convicção de suas contradições. Nos levando imediatamente a "suspeitar" de um grande embuste. 



O espetáculo mórbido de contradições no agir e no falar da "intelligentsia" não se trata de uma contradição acidental, trata-se de uma ação consciente. Cumprindo-se a risca as páginas de 1984 que diz:
"Saber e não saber; ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas; defender simultaneamente duas ideias contraditória e assim, acreditar em ambas: usando a lógica contra a lógica; repudiar a moralidade em nome da moralidade". A esquerda tem seguido a risca este trecho em seu discurso e ação.

Em suma: esta clara contradição do discurso marxista é consciente! Faz parte de uma realidade autotélica, ou seja, que só faz sentido dentro do universo lógico que se tornou o marxismo. Isto se entendermos o marxismo como realidade independente, onde tudo gira em torno da vontade revolucionária de seus líderes. Não há contradição no mundo particular do revolucionário, o que impera é a "lógica" revolucionária com suas próprias leis.

A Oceania (2), descrita no distópico romance mostra a cada dia seus sinais mais presentes em nossa sociedade, e o duplipensar cada vez mais entranhado na mentalidade das massas. 

Inclusive, um dos grandes ícones do chamado marxismo ocidental, Györg Lukács, escreveu no prefácio de seu afamado "História e consciência de classe" de 1920:
“Se a Fausto é permitido abrigar duas almas em seu peito, por que uma pessoa normal não pode apresentar o funcionamento simultâneo e contraditório de tendências intelectuais opostas quando muda de uma classe para outra em meio a uma crise mundial?”
O pensamento de Lukács parece estar em perfeita sintonia com a sociedade distópica descrita por Orwell em 1984, e o porquê desta atitude tão desconcertante é explicado nas próprias páginas do romance: “é somente apaziguando contradições que o poder pode ser mantido”. 

Isso nos leva a concluir que o comunismo é um monstro fantástico que possui a incrível capacidade de assumir e absorver as posições mais antagônicas, sem nunca alterar sua essência ou abandonar suas pretensões. 

Mas, como na trama de Orwell, dentro da nossa sociedade fragmentada pela “esquerda hegemônica”, também existem os seus Goldstein (3), que inteligentemente resolvem exceder os limites demarcados pelo "Ministério da Verdade" e sua patrulha ideológica e corajosamente transgridem os estatutos do "ingsoc" (4). A retaliação é imediata, e como em 1984, o rosto do "ideocriminoso" (5) é exposto a vexação publica, ao ostracismo brutal. Mas nada pode reprimir o lume da verdade que ressoa de seus lábios. 

São fatos como estes que fazem de "1984", mais que uma narração fictícia, mas o retrato mais fiel de nossa triste realidade e também do futuro que a ilusão revolucionária nos reserva.



Notas:

1. Nome fictício de um dos quatro ministérios que administravam as funções do governo em 1984. No romance, o Ministério da Verdade se ocupava das notícias (falsas), diversão, instrução, e belas artes dentro da Ocêania.
2. Ocêania é o país fictício onde transcorre o romance.
3. Emmanuel Goldstein é um dos inimigos máximos do Estado Totalitário que governa a Ocêania. "o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do partido", como descreve Orwell. Por isso, seu rosto é exposto diariamente para a vexação publica, para que, alimentando o ódio cotidiano a sua imagem, torne o povo de Oceânia menos vúlneravel a sua influência. 
4. Ingsoc, sigla de Socialismo Inglês. O grande partido por trás de toda a máquina estatal.
5. Ideocriminoso, aquele que comete crimes de pensamento, que cultiva ou divulga ideias contrárias a ortodoxia do partido.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A degradação cultural de uma nação



 por Erick ferreira


            Qualquer manifestação folclórica, musical, ou comportamental, atualmente no Brasil recebe o pomposo título de manifestação cultural, – não importa quão vil e degradante seja esta manifestação. 
A própria Constituição Federal lançou mais confusão sobre o termo ao proclamar como patrimônio cultural o modo de criar, fazer e viver do povo brasileiro1. Se é cultura o "modo" de criar, viver, e fazer do povo brasileiro, então podemos considerar os assaltos, a prostituição, e tantas formas de corrupção, que de certo modo já se tornaram elementos característicos do modo de ser, fazer e viver de muitos brasileiros, manifestações culturais. Em suma, esta definição de cultura carimbada pela Constituíção se distancia astronomicamente do sentido bimilenar e positivo deste termo, que por muitos antropologos é reconhecido como a alma de uma nação.

Se a cultura deixa de ser um fenômeno qualitativo para se tornar uma mera expressão, ou o modo de ser de um povo, como poderemos distinguir os bons dos maus conjuntos de criações intelectuais que caracterizam o modo de ser de um povo?
Para responder a esta pergunta, precisamos saber antes de tudo o que é cultura. E nessa aventura de desvendar o sentido original de um termo tão antigo, volvemos os olhos até o século I antes de Cristo, quando Cícero (106-43 a. C) usava o metafórico termo cultura animi (cultivo da alma) para se referir a uma atividade exclusivamente humana e racional. Aqui se depreende o primeiro sentido de cultura que se relaciona a interioridade e a reflexão. 
O intelecto do homem, qual campo bravio, necessita receber as boas sementes da civilidade e extirpar as ervas daninhas da barbárie que estavam impregnadas em seu modo de ser e  viver, e esta, podemos dizer, é a primeira função da verdadeira cultura: vencer a barbarie e difundir a civilidade. E isso só seria possível através dos esforços inteletuais e theorétikos de alguns homens em busca da verdade, como fizeram Platão e Aristóteles na Antiguidade, Sto Tomás na Idade Média e Louis Lavelle nos tempos modernos.
E este primeiro étimo dado pela filosofia de Cícero estava intimamente ligado a outra expressão latina: cultus, ou seja, o cuidado devido aos deuses. Desta forma, cultura também adquiria um sentido de devoção, – pois a devoção é o sentimento devido aos deuses através da religião. Mas a devoção que move a autêntica cultura é a devoção a verdade, assim como acontece também na devoção religiosa, porém, a devoção que move a cultura é uma devoção puramente intelectual, enquanto que a devoção religiosa é puramente espiritual.

Por isso, podemos dizer que a cultura não somente tenta semear a boa semente no intelecto do homem, mas “cuidar” para que ela cresça e se torne um campo florido, cheio de virtudes para se elevar a um verdadeiro ideal, que é a devoção à verdade. 
Neste sentido, podemos dizer também que um homem culto é alguém que cultua a verdade.

Todo este sentido que os romanos expressaram de forma tão poética, eles absorveram do mundo grego. Werner Jaeger, com muita segurança declara: “Sem a concepção grega da cultura não teria existido a Antiguidade como unidade histórica, nem o mundo da cultura ocidental”.2 E prova esta afirmação com grande maestria em sua obra monumental Paideia.

Mas qual foi à concepção grega de cultura? Antes de mais nada, os gregos entendiam a cultura como “um conjunto de esforços humanos voltados para a contemplação do sumo bem”. A cultura, portanto, era uma escada ascendente a um bem maior, e tudo o que conduzisse a este fim, poderia ser considerado manifestação cultural. Portanto, a acepção clássica de cultura é inconciliável com certas manifestações degradantes de nosso povo que, “sacrilegamente”, chamam cultura.

Só se compreende o sentido e o devido valor da cultura, quando uma nação com um admirável conjunto de criações intelectuais se envolve em circunstâncias particularmente dramáticas, como as que vivenciaram várias nações europeias durante os tempos sombrios de duas guerras mundiais e vários regimes totalitários. 

Nestes momentos trágicos da existência, a vida cultural revela-se uma válvula de escape contra a grave crise existencial que o mal desencadeia, pois a busca por um sumo bem, impulsiona as mais admiráveis criações e preserva as remascentes.

Em um trecho de Como ser um conservador, Roger Scruton narra sua experiência na Praga dos anos 70 sob domínio comunista. Conta ele que foi convidado por Julius Tomin (um filosofo local que organizava a vida cultural na clandestinidade) para proferir uma palestra. Ao chegar em Praga, a policia comunista o deteve ainda na porta do prédio, onde o aguardava o prof. Tomin, o impedindo de adentrar a sala onde iria proferir a palestra. Após certa confusão, conseguiu se livrar da policia e finalmente adentrar na sala, onde o aguardava uma plateia épica de intelectuais. 
Scruton, impressionou-se profundamente com o que encontrara na clandestinidade da Praga devastada por um regime totalitário. 

Naquela sala estavam os exauridos remanescentes da intelectualidade de Praga – velhos professores de coletes surrados; poetas de cabelos longos; estudantes com cara de calouros que tiveram negada a entrada na universidade em virtude dos “crimes” políticos cometidos por seus pais; padres e religiosos à paisana; romancistas e teólogos; um aspirante a rabino; até um psicanalista3

A vida cultural sobrevivia em meio ao caos, e ela não podia parar, caso contrário, estava morta a alma daquela nação. 
Uma experiência semelhante nos narra Theodore Dalrymple em meio ao dramático cenário da II Guerra Mundial.
Com sua habitual elegância, Dalrymple descreve o harmônico conserto de Myra Hess que se realizava na National Gallery de Londres, enquanto lá fora, uma chuva de bombas caia sobre a cidade4. A arte, a filosofia, o romance se mostravam naqueles momentos desesperadores, uma forma de transcender o absurdo; e dos horrores da guerra, a Europa via emergir a genialidade em tantos recantos obscuros.

Concerto de Myra Hess

E esses episódios de transcendência e impulso cultural, se desenrolavam a cada vez que a humanidade se via em circunstâncias trágicas como estas. Nestes momentos, a cultura mostrava-se a força capaz de elevar o espírito humano de sua mera existência física à uma existência espiritual, estética, e excelente. 
Quando penso no florescimento exuberante de vida intelectual que certos países europeus devastados pela guerra experimentaram, concluo, quase que inevitavelmente, que a cultura é uma elevação metafísica, a seiva vital de uma nação.

Neste interim, migro instantaneamente para o Brasil contemporâneo, e me deparo com a degradação cultural mais radical já experienciada por qualquer nação civilizada do mundo moderno. E em meio ao caos brasiliano, me pergunto: temos um conjunto de criações e esforços humanos que possamos chamar dignamente de cultura? Temos esta arte encantada que nos lance em direção a um sumo bem? Eis a pergunta que nos inquieta.

A pseudo-cultura brasileira moderna, composta por samba, funk, batuque e meneios frenéticos e sinuosos, de estilos literários inexpressivos, etc., seria capaz de nos elevar quando o caos e a tragédia nos envolver? Estas falsas expressões culturais são capazes de nos abstrair do desespero existencial? Não, pois elas são a própria expressão do desespero humano, o amor à lama, e o desprezo às alturas sublimes do espírito.


Notas:
1. Constituição Federal. Art. 216, II
2. cf. JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Trad: Artur M. Parreira. 3º ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 7
“Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura, só começa com o homem grego” (JAEGER, 1995. p. 5)
3. SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad: Bruno Garschagen. 1° ed. Rio de Janeiro: Record, 2015. p. 26-27.