por Erick ferreira
Qualquer
manifestação folclórica, musical, ou comportamental, atualmente no Brasil recebe
o pomposo título de manifestação
cultural, – não importa quão vil e degradante seja esta manifestação.
A própria
Constituição Federal lançou mais confusão sobre o termo ao proclamar como
patrimônio cultural o modo de criar,
fazer e viver do povo brasileiro1. Se é cultura o "modo" de criar, viver, e fazer do povo brasileiro, então podemos considerar os assaltos, a prostituição, e tantas formas de
corrupção, que de certo modo já se tornaram elementos característicos do modo de ser, fazer e viver de muitos brasileiros, manifestações culturais. Em suma, esta definição de cultura carimbada pela Constituíção se distancia astronomicamente do sentido bimilenar e positivo deste termo, que por muitos antropologos é reconhecido como a alma de uma nação.
Se a cultura deixa de ser
um fenômeno qualitativo para se tornar uma mera expressão, ou o modo de ser de
um povo, como poderemos distinguir os bons dos maus conjuntos de criações intelectuais que caracterizam o modo de ser de um povo?
Para responder a esta pergunta, precisamos saber antes de tudo o que é cultura.
E nessa aventura de desvendar o sentido original de um termo tão antigo,
volvemos os olhos até o século I antes de Cristo, quando Cícero (106-43 a. C) usava
o metafórico termo cultura animi
(cultivo da alma) para se referir a uma atividade exclusivamente humana e
racional. Aqui se depreende o primeiro sentido de cultura que se relaciona a
interioridade e a reflexão.
O intelecto do homem, qual campo bravio,
necessita receber as boas sementes da civilidade e extirpar as ervas daninhas
da barbárie que estavam impregnadas em seu modo de ser e viver, e esta, podemos dizer, é a primeira função da verdadeira cultura: vencer a barbarie e difundir a civilidade. E isso só seria possível através dos esforços inteletuais e theorétikos de alguns homens em busca da verdade, como fizeram Platão e Aristóteles na Antiguidade, Sto Tomás na Idade Média e Louis Lavelle nos tempos modernos.
E este primeiro étimo dado pela filosofia de
Cícero estava intimamente ligado a outra expressão latina: cultus, ou seja, o cuidado devido aos
deuses. Desta forma, cultura também
adquiria um sentido de devoção, – pois a devoção é o sentimento devido aos deuses através da religião. Mas a devoção que move a autêntica cultura é a devoção a verdade, assim como acontece também na devoção religiosa, porém, a devoção que move a cultura é uma devoção puramente intelectual, enquanto que a devoção religiosa é puramente espiritual.
Por isso, podemos dizer que a cultura não somente
tenta semear a boa semente no intelecto do homem, mas “cuidar” para que ela
cresça e se torne um campo florido, cheio de virtudes para se elevar a um verdadeiro ideal, que é a devoção à verdade.
Neste sentido, podemos dizer também que um
homem culto é alguém que cultua a verdade.
Todo este sentido que os romanos expressaram de
forma tão poética, eles absorveram do mundo grego. Werner Jaeger, com muita
segurança declara: “Sem a concepção grega da cultura não teria existido a Antiguidade como unidade histórica, nem
o mundo da cultura ocidental”.2 E prova esta afirmação com grande
maestria em sua obra monumental Paideia.
Mas qual foi à concepção grega de cultura? Antes de
mais nada, os gregos entendiam a cultura como “um conjunto de esforços humanos
voltados para a contemplação do sumo bem”. A cultura, portanto, era uma escada
ascendente a um bem maior, e tudo o que conduzisse a este fim, poderia ser
considerado manifestação cultural. Portanto, a acepção clássica de cultura é
inconciliável com certas manifestações degradantes de nosso povo que,
“sacrilegamente”, chamam cultura.
Só se compreende o sentido e o devido valor da
cultura, quando uma nação com um admirável conjunto de criações intelectuais se envolve em circunstâncias particularmente dramáticas, como as que vivenciaram várias nações europeias
durante os tempos sombrios de duas guerras mundiais e vários regimes
totalitários.
Nestes momentos trágicos da existência, a vida cultural revela-se uma válvula de escape contra a grave crise existencial que o mal desencadeia, pois a busca por um
sumo bem, impulsiona as mais admiráveis criações e preserva as remascentes.
Em um trecho de Como ser um conservador, Roger Scruton narra sua experiência na Praga dos anos
70 sob domínio comunista. Conta ele que foi convidado por Julius Tomin (um
filosofo local que organizava a vida cultural na clandestinidade) para proferir
uma palestra. Ao chegar em Praga, a policia comunista o deteve ainda na porta do prédio, onde o aguardava o prof. Tomin, o impedindo de adentrar a sala onde iria proferir a palestra.
Após certa confusão, conseguiu se livrar da policia e finalmente adentrar na sala, onde o aguardava uma plateia
épica de intelectuais.
Scruton, impressionou-se profundamente com o que
encontrara na clandestinidade da Praga devastada por um regime
totalitário.
Naquela sala
estavam os exauridos remanescentes da intelectualidade de Praga – velhos
professores de coletes surrados; poetas de cabelos longos; estudantes com cara
de calouros que tiveram negada a entrada na universidade em virtude dos
“crimes” políticos cometidos por seus pais; padres e religiosos à paisana;
romancistas e teólogos; um aspirante a rabino; até um psicanalista3.
A
vida cultural sobrevivia em meio ao caos, e ela não podia parar, caso contrário, estava
morta a alma daquela nação.
Uma experiência semelhante nos narra Theodore Dalrymple em
meio ao dramático cenário da II Guerra Mundial.
Com
sua habitual elegância, Dalrymple descreve o harmônico conserto de Myra Hess
que se realizava na National Gallery de Londres, enquanto lá fora, uma chuva de
bombas caia sobre a cidade4. A arte, a filosofia, o romance se
mostravam naqueles momentos desesperadores, uma forma de transcender o absurdo; e dos
horrores da guerra, a Europa via emergir a genialidade em tantos recantos
obscuros.
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| Concerto de Myra Hess |
E
esses episódios de transcendência e impulso cultural, se desenrolavam a cada vez que a humanidade
se via em circunstâncias trágicas como estas. Nestes momentos, a cultura mostrava-se a
força capaz de elevar o espírito humano de sua mera existência física à uma
existência espiritual, estética, e excelente.
Quando penso no florescimento
exuberante de vida intelectual que certos países europeus devastados pela
guerra experimentaram, concluo, quase que inevitavelmente, que a cultura é uma
elevação metafísica, a seiva vital de uma nação.
Neste
interim, migro instantaneamente para o Brasil contemporâneo, e me deparo com a
degradação cultural mais radical já experienciada por qualquer nação civilizada
do mundo moderno. E em meio ao caos brasiliano, me pergunto: temos um conjunto
de criações e esforços humanos que possamos chamar dignamente de cultura? Temos esta arte encantada que
nos lance em direção a um sumo bem? Eis a pergunta que nos inquieta.
A
pseudo-cultura brasileira moderna, composta por samba, funk, batuque e meneios
frenéticos e sinuosos, de estilos literários inexpressivos, etc., seria capaz
de nos elevar quando o caos e a tragédia nos envolver? Estas falsas expressões
culturais são capazes de nos abstrair do desespero existencial? Não, pois elas
são a própria expressão do desespero humano, o amor à lama, e o desprezo às
alturas sublimes do espírito.
Notas:
1.
Constituição Federal. Art. 216, II
2.
cf. JAEGER, Werner. Paideia: a formação
do homem grego. Trad: Artur M. Parreira. 3º ed. São Paulo: Martins Fontes,
1995. p. 7
“Por
mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas
dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência
chamar cultura, só começa com o homem grego” (JAEGER, 1995. p. 5)
3.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Trad: Bruno Garschagen. 1° ed. Rio de Janeiro: Record, 2015. p. 26-27.