quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Clássicos em PDF





             Nosso blog resolveu colocar a disposição de seus leitores algumas obras essenciais para uma adequada formação humanística. A maioria delas, já se encontra em domínio publico, facilitando ainda mais a sua difusão. 
Quanto ao valor dos clássicos aqui apresentados, dispensa-se apresentação: são obras cujo valor cultural são inquestionável, e que simplesmente traduzem com especial singeleza a alma do homem ocidental. 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O espírito revolucionário



Antes de confluir para a política, para a cultura, para a religião, para a economia., a revolução, como toda revolta, começa no coração do homem, que se vê como deus e senhor, e por esta “augusta condição”, acredita que a natureza existe unicamente para satisfazê-lo. Esta insana pretensão que acomete qualquer individuo no alto de sua imaturidade, pode ser curada nas suas primeiras manifestações (geralmente na adolescência) com uma boa dose de realismo, se não, ela se alarga vertiginosamente, atingindo níveis colossais e indomáveis, até se converter numa grande explosão de ódio contra a ordem imodificável da natureza e seus inevitáveis percursos.

A revolução, portanto, tem um inicio tímido em alguns indivíduos soberbos que presunçosamente acreditam haver encontrado a formula mágica para todos os males da humanidade. O problema se deflagra quando estes indivíduos excêntricos encontram outros que seguem a mesma perspectiva e com os mesmos transtornos, – e tristemente, não são poucos os que partilham desta visão distorcida de si e da realidade.

Em uma “santa aliança”, estes indivíduos se associam para cumprir a “sagrada” missão que seus egos lhe impõem: transformar o mundo. Por amor a humanidade? Certamente não. Nunca se viu nenhum revolucionário capaz de fazer a mínima caridade que estava dentro de suas possibilidades. Pelo contrário, abundam relatos da avareza, mesquinhez e ingratidão de suas vidas. A Marx se deve os piores defeitos morais que um individuo possa ter. J. J Rousseau fora cruel e arrogante, chegando a colocar seus filhos em um orfanato para não ter com eles nenhuma responsabilidade; Voltaire, fora mercador de seres humanos. Quase todos os revolucionários eram indivíduos cheios de defeitos morais, no entanto, autossuficientes, a ponto de pensar que seriam capazes de corrigir o mundo, ao mesmo tempo em que eram incapazes de corrigir o menor de seus defeitos.  

Estes indivíduos, numa espécie de surto auto-deificante, acreditavam que suas personalidades, sua moral e suas visões de mundo, eram a medida padrão a ser adotada por toda a humanidade, de modo que o mundo não poderia evoluir se não adequar-se a estas visões e padrões de comportamento que eles apresentavam. Esta foi a receita ideal para o despontar de inúmeros tiranos.

Mas o que leva um indivíduo a atingir tal nível de prepotência e rebeldia? Em séculos bem remotos, os sábios cunharam um termo para referir-se a um fenômeno misterioso que habitava o coração do homem, e de onde emanavam todos as barbaridades que a humanidade fora capaz de perpetrar. Chamaram-na filáucia (do grego phília, amor, amizade, e autós, próprio), ou seja, o amor próprio. Mas antes de demonizar este fenômeno natural do temperamento humano, devemos explicar que o mal não é o amor próprio, mas o desvio de sua função natural. 

Todas as pessoas devem conservar um pouco de amor próprio, pois se não o tiverem, não saberão conservar amor a mais nada. Porém, como tudo nesta vida exige regras e equilibrio, o amor próprio não fugiria a esta norma. O limite que o amor próprio exigia era a consciência das limitações humanas, tais como: nossa limitada inteligência, nossa enganosa bondade, nossa triste mortalidade, nossa fragilidade e efemeridade etc. Tais limitações são simplesmente ignoradas por um espírito revolucionário, cujo amor próprio exacerbado, acabou por desaguar na terrível ilusão de uma falsa superioridade moral, intelectual, e espiritual, de modo, que um indivíduo em tal estado, chega a ignorar sua condição de simples mortal, concluindo como o prepotente Nietzsche: “Eu sou deus”.

Se o individuo se auto-deifica através de um amor próprio desordenado, na sua desvairada crença particular não haverá espaço para outra lei e nem para os imprevisíveis da vida. Frases como: “Tenho minhas próprias leis” ou “Eu faço meu destino”, são típicas da mentalidade revolucionária. 

A mentalidade revolucionária, portanto, funda-se numa escabrosa ilusão auto imposta. Mas como ninguém pode se enganar totalmente, o revolucionário adquiri ódio brutal a verdade, e por isso, distorce diabolicamente a realidade a seu bel-prazer para justificar suas crenças. Estas crenças particulares e absurdas têm implicações devastadoras: “Se não há um Deus, nem uma lei natural e divina, – pois todo homem é um deus com sua própria lei –, logo, tudo é permitido em nome dessa lei e de sua falsa divindade”. Foram conclusões como estas que fizeram a mente de todos os revolucionários que surgiram na história, e são conclusões como estas que germinam silenciosamente na cabeça de numerosos adolescentes que mal alcançaram a consciência de si, mas já se acreditam aptos para mudar o mundo. 


O espírito revolucionário

Introdução
O espírito revolucionário


O que é a Revolução? Uma simples revolta contra um estado de coisas? A deposição de um tirano? Foi isso que nos fizeram crer ao longo de séculos a respeito deste fenômeno, de modo que seu sentido chegou a nossos ouvidos belo e suave, como a expressão de um acontecimento esplendoroso e transformador. Mas, ao contrário do que nos fizeram crer, a revolução é a expressão da revolta mais radical contra uma ordem e um sentido no homem e na existência. Sua consequência natural é a tirania, e sua força motriz é o ódio.  

A revolução em sua incursão de impiedade costuma interromper a caminhada ascendente de uma civilização, e confina-la a um processo cíclico (como o próprio étimo da palavra sugere) [1],  no qual, a perda de um paraíso terreno é a razão da luta por uma redenção política, econômica, cultural,  etc.,  para assim retornar outra vez ao paraíso perdido.  Este é o movimento natural de todo processo revolucionário, que nunca sai deste círculo e nunca chega ao almejado paraíso terreno. 

Em suma: a revolução é um eterno retorno, ou tentativa de retornar a um lugar desconhecido, -- do qual, supostamente, a humanidade se afastou por algum desvio acidental --, e assim, recuperar a inocência perdida, que a ganância de um desvio político e econômico destruiu. 

Porém, ao mesmo tempo em que o espírito revolucionário incita a busca de um lugar desconhecido, -- no qual o revolucionário nunca esteve --, e a um estado ideal -- que eles nunca experimentaram --, a revolução propõe uma rejeição radical do passado em detrimento de um futuro hipotético. 
“A revolução social do século XIX, escreve Marx, não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado” [2]. Não é curiosa esta contradição do espírito revolucionário? Quer reconstruir a sociedade com base em um estado de coisas passadas, sem recorrer a nada do passado! São contradições como estas que fazem do espírito revolucionário um mero devaneio juvenil.


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A revolução, – como expressa um autor francês do século passado –, na melhor definição já feita sobre o termo, é: 
O ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo. É a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus; a filosofia da revolta; a política da revolta; a religião da revolta; a negação armada; a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; em uma palavra, é a anarquia, porque quer ver a Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque se chama Revolução, ou seja, ‘subversão’, porque coloca em cima, aquele que segundo a lei eterna deveria estar em baixo, e coloca abaixo Aquele que deveria estar em cima1.(GAUME, Jean-Joseph. La Révolution: Recherches Historiques. Paris: Libraires-Editeurs, 1856. p. 16-17)
De fato, não há pretensão mais clara no espírito revolucionário do que esta expressa nas palavras de Mons. Gaumé: a subversão de toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem [3] 
Neste sentido, cabe dizer que nem toda insurreição armada de grandes proporções, ou revolta contra um sistema, mereça o famigerado titulo de Revolução. Para ser de fato uma revolução, precisa trazer consigo a pretensão radical de transformar toda a face da sociedade, sua moral, sua cultura, sua religião e mentalidade etc., e poucas revoltas foram capazes de tal feito, como o foram, a pseudo-Reforma Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Comunista. Por isso, ouso chama-las de revoluções mater, pois delas insurgiram todos os focos revolucionários subsequentes da modernidade. 
Outro ponto importante a se dizer sobre a revolução é que, todas as revoluções são feitas por um pequeno grupo de agitadores que conquista demagogicamente as massas com falsas promessas de um mundo novo. Para concretizar estas promessas, exigem que o poder politico seja concentrado em suas mãos. Por isso, dizia Marx que “toda revolução é política”, embora, sua essência seja mais espiritual que político [4].

Com esta breve introdução iniciamos uma serie de artigos sobre o espírito revolucionário. 



Notas:

1. Revolução, do latim re-volvere, ou seja, “dar uma volta”, “revolver”

2.  MARX, Karl. 18 Brumário de Luis Bonaparte. 

3. Quando afirmamos que há uma ordem que não foi estabelecida pelo homem, nos referimos a uma ordem natural que rege a natureza humana e a própria ordem social, e cujas forças estão estabelecidas por razões superiores.

4. A partir do pensamento da escola de Frankfurt, a política na ação revolucionária assume outra posição, como expressou Gyorg Lukács em 1919: “a política é apenas o meio, a cultura é o objetivo”.