segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O espírito revolucionário

Introdução
O espírito revolucionário


O que é a Revolução? Uma simples revolta contra um estado de coisas? A deposição de um tirano? Foi isso que nos fizeram crer ao longo de séculos a respeito deste fenômeno, de modo que seu sentido chegou a nossos ouvidos belo e suave, como a expressão de um acontecimento esplendoroso e transformador. Mas, ao contrário do que nos fizeram crer, a revolução é a expressão da revolta mais radical contra uma ordem e um sentido no homem e na existência. Sua consequência natural é a tirania, e sua força motriz é o ódio.  

A revolução em sua incursão de impiedade costuma interromper a caminhada ascendente de uma civilização, e confina-la a um processo cíclico (como o próprio étimo da palavra sugere) [1],  no qual, a perda de um paraíso terreno é a razão da luta por uma redenção política, econômica, cultural,  etc.,  para assim retornar outra vez ao paraíso perdido.  Este é o movimento natural de todo processo revolucionário, que nunca sai deste círculo e nunca chega ao almejado paraíso terreno. 

Em suma: a revolução é um eterno retorno, ou tentativa de retornar a um lugar desconhecido, -- do qual, supostamente, a humanidade se afastou por algum desvio acidental --, e assim, recuperar a inocência perdida, que a ganância de um desvio político e econômico destruiu. 

Porém, ao mesmo tempo em que o espírito revolucionário incita a busca de um lugar desconhecido, -- no qual o revolucionário nunca esteve --, e a um estado ideal -- que eles nunca experimentaram --, a revolução propõe uma rejeição radical do passado em detrimento de um futuro hipotético. 
“A revolução social do século XIX, escreve Marx, não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado” [2]. Não é curiosa esta contradição do espírito revolucionário? Quer reconstruir a sociedade com base em um estado de coisas passadas, sem recorrer a nada do passado! São contradições como estas que fazem do espírito revolucionário um mero devaneio juvenil.


** * **

A revolução, – como expressa um autor francês do século passado –, na melhor definição já feita sobre o termo, é: 
O ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo. É a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus; a filosofia da revolta; a política da revolta; a religião da revolta; a negação armada; a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; em uma palavra, é a anarquia, porque quer ver a Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque se chama Revolução, ou seja, ‘subversão’, porque coloca em cima, aquele que segundo a lei eterna deveria estar em baixo, e coloca abaixo Aquele que deveria estar em cima1.(GAUME, Jean-Joseph. La Révolution: Recherches Historiques. Paris: Libraires-Editeurs, 1856. p. 16-17)
De fato, não há pretensão mais clara no espírito revolucionário do que esta expressa nas palavras de Mons. Gaumé: a subversão de toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem [3] 
Neste sentido, cabe dizer que nem toda insurreição armada de grandes proporções, ou revolta contra um sistema, mereça o famigerado titulo de Revolução. Para ser de fato uma revolução, precisa trazer consigo a pretensão radical de transformar toda a face da sociedade, sua moral, sua cultura, sua religião e mentalidade etc., e poucas revoltas foram capazes de tal feito, como o foram, a pseudo-Reforma Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Comunista. Por isso, ouso chama-las de revoluções mater, pois delas insurgiram todos os focos revolucionários subsequentes da modernidade. 
Outro ponto importante a se dizer sobre a revolução é que, todas as revoluções são feitas por um pequeno grupo de agitadores que conquista demagogicamente as massas com falsas promessas de um mundo novo. Para concretizar estas promessas, exigem que o poder politico seja concentrado em suas mãos. Por isso, dizia Marx que “toda revolução é política”, embora, sua essência seja mais espiritual que político [4].

Com esta breve introdução iniciamos uma serie de artigos sobre o espírito revolucionário. 



Notas:

1. Revolução, do latim re-volvere, ou seja, “dar uma volta”, “revolver”

2.  MARX, Karl. 18 Brumário de Luis Bonaparte. 

3. Quando afirmamos que há uma ordem que não foi estabelecida pelo homem, nos referimos a uma ordem natural que rege a natureza humana e a própria ordem social, e cujas forças estão estabelecidas por razões superiores.

4. A partir do pensamento da escola de Frankfurt, a política na ação revolucionária assume outra posição, como expressou Gyorg Lukács em 1919: “a política é apenas o meio, a cultura é o objetivo”.


Nenhum comentário:

Postar um comentário