Por Roger
Scruton – Tradução: Erick Ferreira
“As boas maneiras fazem o homem”[1],–
o velho adágio nos lembra uma verdade importante: que as pessoas são feitas,
não nascem, e que são feitas por sua relação com os outros. Claro, um ser-humano
pode existir em um estado de natureza, selvagem, sem palavras, solitário. Mas
ele não teria nossa forma de vida distinta; em um sentido importante, ele não
seria uma pessoa.
As boas maneiras já foram
descritas como la petite morale,
significando todos aqueles aspectos da moralidade não ditos pelos juízes e
pregadores, mas sem os quais os pregadores não teriam com quem falar. Os Dez
Mandamentos não são dirigidos a selvagens: eles pressupõem uma comunidade já
existente de ouvintes, pessoas já em relação aos seus "vizinhos", a
quem eles podem roubar, matar, trair ou ofender. As maneiras, bem
compreendidas, são os instrumentos com que negociamos a nossa passagem pelo
mundo, conquistamos o respeito e o apoio dos outros e formamos comunidades, que
são algo mais do que a soma dos seus membros. Mas em um mundo onde as pessoas
se apressam de meta em meta, com escasso respeito pelas formas que garantem o
respeito e o endosso de seus semelhantes, essas verdades estão cada vez mais
obscurecidas.
Na corrida pelo lucro, a pessoa
educada está em aparente desvantagem. Ele não fura filas; ele não grita,
empurra e luta para chegar às mercadorias; ele perde momentos preciosos dando
lugar as pessoas mais lentas e indefesas; ele se senta para comer com a família
e amigos, em vez de engolir um sanduíche com o casco; ele escuta com paciência
os enfadonhos e arranja tempo para as pessoas cuja única reivindicação de seu
tempo é que precisam dele; ele permite que os relacionamentos se desenvolvam
lentamente e em uma atmosfera de respeito mútuo; se ele tem o objetivo de
conhecê-lo, ele o revelará apenas no momento apropriado e quando tiver
verificado que você não se sentirá nem usado nem ofendido. Ele é, em suma, um
perdedor: ou é o que muitas pessoas parecem pensar, vendo a polidez como um
obstáculo ao sucesso pessoal. Em um mundo de competição acirrada, a pessoa rude
será a primeira a vencer. Então, por que ser educado?
Esse raciocínio parece
especialmente convincente quando todos podem obter tanto sem a cooperação de
outros. Antigamente, as pessoas precisavam de alguém para cozinhar para elas,
conversar com elas enquanto comiam, relaxar com um jogo de cartas. Os vizinhos
dependiam uns dos outros para entretenimento, transporte, enfermagem, compras,
mil necessidades diárias. Hoje, essa dependência está diminuindo - pelo menos
na superfície, onde a maioria das pessoas mora. A televisão eliminou a
necessidade de formas cooperativas de entretenimento; fast food e comidas para viagem tornaram a culinária obsoleta; o
supermercado está repleto de solipsistas[2]
solitários que atendem silenciosamente aos desejos de suas famílias solitárias.
Em alguns locais de trabalho, certamente, as pessoas precisam da aceitação e do
aval de outras pessoas para passar o dia, mas muitos escritórios são locais de
solidão, nos quais o único objeto de estudo é uma tela de computador e o único
veículo de comunicação um telefone.
O fato de podermos sobreviver sem
boas maneiras, entretanto, não mostra que a natureza humana não precisa delas
de uma maneira mais profunda. Afinal, podemos sobreviver sem amor, sem filhos,
sem paz ou conforto ou amizade. Mas todas essas coisas são necessidades
humanas, pois precisamos delas para nossa felicidade. Sem elas, não estamos
realizados. E o mesmo vale para as maneiras.
São as crianças que mais
vividamente nos lembram dessa verdade. Porque existe uma necessidade profunda
(uma necessidade da espécie) de amá-las e protegê-los, existe uma necessidade
profunda de torná-las amáveis. Ao ensinar-lhes boas maneiras, estamos dando os
toques finais nos membros em potencial da sociedade, acrescentando o polimento
que os torna agradáveis. (Etimologicamente, "educado" e
"polido" estão conectados; eles soam idênticos em francês.) Desde o
início, portanto, nos esforçamos para suavizar o egoísmo. Ensinamos as crianças
a ter consideração, obrigando-as a se comportar de maneira atenciosa. A criança
indisciplinada, agressiva ou esperta está em grande desvantagem no mundo,
isolada das fontes duradouras de realização humana. Sua mãe pode amá-la, mas os
outros a temerão ou não gostarão dela.
O ensino de boas maneiras às
crianças vai além de apenas controlar seu comportamento. Também envolve uma
espécie de modelagem, que eleva a forma humana acima do nível da vida animal,
de modo a se tornar totalmente humana, sociável e autoconsciente. Comer é a
arena principal dessa transformação. Tradicionalmente, é uma ocasião social, em
que a comida é oferecida e levada como um presente. Ao comer, nutrimos não
apenas nosso corpo, mas também nossas relações sociais e, portanto, nossa alma.
É por isso que boas maneiras à mesa são tão importantes - e as principais
lições de educação que são dadas às crianças. "Por favor",
"obrigado", "pode ser"
e "você poderia passar" -
mesmo quando pronunciado pela mãe, que não tem escolha a não ser prover –– ressoa para sempre na
consciência de uma criança.
Como comemos, que tipo de
consciência revelamos ao comer –– são questões importantes, pois afetam o
que representamos para os outros. Como os animais, ingerimos comida pela boca. Mas a
boca humana tem outro significado. É o lugar de onde o espírito emerge na forma
de fala. É com a boca que franzimos o cenho, beijamos ou sorrimos, e "os
sorrisos da razão fluem e amamos a comida", como diz Milton. A boca só
perde para os olhos como sinal visível de si mesmo e caráter. A nossa forma de
apresenta-la é, portanto, da maior importância para nós. Nós a protegemos quando
bocejamos em público; nós a enxugamos com um guardanapo em vez de limpá-la com
as costas da mão. A boca é um limiar, e a passagem do alimento por ela é um
drama social –– um movimento do exterior para o interior e do objeto para o
sujeito. Portanto, não colocamos nosso rosto no prato como um cachorro faz; não
mordemos mais do que podemos mastigar enquanto conversamos; não cuspimos o que
não podemos engolir; e quando a comida passa por nossos lábios, nos esforçamos
para fazê-la desaparecer, para se tornar inobservavelmente uma parte de nós.
Os modos à mesa garantem que a
boca retenha seu caráter social e espiritual no exato momento em que está
suprindo as necessidades do corpo. Portanto, eles nos permitem combinar
conversação e consumo. Sem maneiras, a refeição perde seu significado social e
se fragmenta em uma competição pelo estoque comum de forragem. Comer então
degenera em alimentação –– essen em fressen[3]
–– e a conversa em bufadas e grunhidos.
Diferentes culturas desenvolveram
seus próprios métodos para evitar que isso aconteça. Existem poucas atrações
domésticas mais bonitas do que uma família chinesa sentada ao redor de uma
tainha ou robalo fumegante, cada um contribuindo para o fundo comum da
hilaridade enquanto se servia discretamente do prato comum. O pauzinho, que
trata em pequenas porções e não agride a boca, ajuda a garantir contenção e
conversação. Mas a gentil reciprocidade de tal refeição familiar não requer
esse mediador artificial entre a mão e a boca. O costume africano de comer com
os dedos é igualmente eficaz para induzir boas maneiras, quando a tigela fica
no centro do círculo familiar, e todos devem estender a mão cerimoniosamente
para participar dela, depois levantando a mão à boca enquanto olham e sorriem
para seu vizinho. Todos esses costumes apontam para o mesmo fim: a manutenção
da bondade humana.
Quando as maneiras são
esquecidas, a refeição como ocasião social desaparece, como já está acontecendo.
As pessoas agora comem distraidamente diante de uma tela de TV, reabastecem
seus corpos na rua ou caminham pelo local de trabalho com um sanduíche nas
mãos. Quando lecionei pela primeira vez na América, fiquei chocado ao encontrar
alunos carregando pizzas e cachorros-quentes para a sala de aula, que começaram
a enfiar na cara enquanto olhavam com leve curiosidade para o cara no pódio[4].
Mais tarde, colegas me disseram que esse comportamento não surgiu do ethos universitário; começou na escola ––
começou na própria casa. Já o momento mais importante de renovação social –– do
qual as famílias dependem para sua autoconfiança interior e do qual surgem
amizades sérias –– estava se tornando marginal para os jovens. Comer estava
reduzindo-se a uma função, e não é surpreendente se uma geração de crianças
educadas dessa maneira achasse difícil ou estranho estabelecer-se em qualquer
relacionamento que não seja provisório e temporário.
A grosseria do glutão e do
estufador de rosto é óbvia. Igualmente mal-educado - embora seja politicamente
incorreto dizer - é o modista da comida, que faz questão de anunciar, aonde
quer que vá, que apenas isso ou aquilo pode passar por seus lábios, e todas as
outras coisas devem ser rejeitadas, mesmo quando oferecido como um presente.
Fui ensinado a comer tudo o que fosse colocado diante de mim, sendo a escolha
um pecado contra a hospitalidade e um sinal de orgulho. Mas vegetarianos e
veganos agora têm sucesso em policiar a mesa de jantar com suas demandas não
negociáveis, garantindo que mesmo quando convidados para uma companhia, eles se
sentem sozinhos.
Tanto o modista quanto o glutão
perderam de vista o caráter cerimonial da alimentação, cuja essência é a
hospitalidade e o presente. Para cada um deles, eu e meu corpo ocupamos o
centro do palco, e a refeição perde seu significado como um diálogo humano.
Embora o viciado em comida saudável seja, em certo sentido, o oposto do
devorador de hambúrguer e do chocaholic,
ele também é um produto da cultura da geladeira, para quem comer é alimentar-se,
e alimentar-se um episódio solipsístico, no qual os outros são desconsiderados.
O bico enjoado do fanático por saúde e a boca esticada do viciado em junk food são sinais semelhantes de um
profundo egocentrismo. Provavelmente, é melhor que essas pessoas comam por
conta própria, uma vez que, mesmo em companhia, ficam realmente trancadas na
solidão.
As maneiras à mesa nos ajudam a
ver que a polidez não é, afinal, uma desvantagem. Embora a pessoa mal-educada
possa agarrar mais da comida, ela receberá menos do afeto; e a comunhão é o
verdadeiro significado da refeição. Da próxima vez, ele não será convidado. A
polidez o torna parte das coisas e, portanto, lhe dá uma vantagem duradoura
sobre aqueles que nunca a adquiriram. E isso nos dá uma pista da verdadeira
natureza da rudeza: ser rude não é apenas ser egoísta, da maneira que as
crianças (até que sejam ensinados de outra forma) e os animais são
instintivamente egoístas; é estar ostensivamente sozinho. Mesmo na reunião mais
genial, a pessoa rude trairá, por alguma palavra ou gesto, que não faz
realmente parte dela. Claro que ele está lá, um organismo vivo, com desejos e
necessidades. Mas ele não pertence à conversa.
Onde esse defeito se mostra de
forma mais desanimadora é nas relações sexuais. Mesmo nestes dias de seduções
precipitadas e casos breves, os parceiros sexuais têm uma escolha entre
relações totalmente humanas e meramente animais. A indústria da pornografia
está constantemente nos empurrando para a segunda opção. Mas a cultura, a
moralidade e o que resta da piedade visam o primeiro. Sua arma mais importante
nesta batalha é a ternura. Sentimentos de ternura não existem fora de um
contexto social. A ternura nasce do cuidado e da cortesia, dos gestos graciosos
e de uma preocupação serena e atenta. É algo que você aprende e a polidez é uma
forma de ensiná-lo. Não é à toa que usamos a palavra "rude" para
denotar más maneiras e comportamento obsceno. A pessoa cujas estratégias
sexuais envolvem piadas grosseiras, gestos explícitos e abraços lascivos, que
dispara em direção ao seu objetivo sem aceitar "não" ou
"talvez" ou "ainda não" como resposta, está procurando sexo
do tipo errado –– sexo em que o outro é um meio de excitação, ao invés de um
objeto de preocupação. Inserido nesse estado de espírito, o sexo não é uma
aceitação, mas uma rejeição do outro, uma forma de manter uma solidão de ferro
em meio à união. É por isso que é tão profundamente ofensivo e porque as mulheres,
especialmente, se sentem violadas quando os homens as tratam dessa forma.
Os códigos de conduta sexual são
um exemplo óbvio da maneira como tentamos elevar nossa conduta a um nível mais
elevado –– o nível em que o animal afunda e o humano o substitui. E o que
distingue o humano é a preocupação com os outros, cuja soberania sobre suas
próprias vidas devemos respeitar e a quem não devemos tratar como se nossos
desejos e ambições tivessem precedência automática sobre os deles. Era o que
Kant tinha em mente em sua segunda formulação do imperativo categórico: agir de
modo a tratar a humanidade, seja em você ou no outro, sempre como um fim em si
mesmo, e nunca como um meio apenas. A maneira de Kant colocar a questão mostra
a verdade na velha descrição francesa de boas maneiras como la petite morale. A moral e os costumes
(e a lei também) são partes contínuas de um único empreendimento, que consiste
em formar uma sociedade de indivíduos cooperativos e mutuamente respeitosos a
partir da matéria-prima de animais egoístas.
Mas, diz o cínico, somos animais
egoístas e todas essas tentativas de disfarçar o fato são apenas hipocrisia.
Esse pensamento insidioso assume muitas formas. La Rochefoucauld descreveu a
hipocrisia como o tributo que o vício presta à virtude –– um elogio, à sua
maneira. Sem hipocrisia, que elogio a virtude recebe? Ainda mais influentes
para os moralistas têm sido as palavras de Cristo: "Ai de vocês, escribas
e fariseus, hipócritas!" Este é o pensamento principal da tradição
protestante, que nos diz que estabelecemos nosso título de bondade e salvação
pela obediência interior, não por exibição exterior. Boas maneiras, formas,
cortesias e graças são meros ornamentos, destinados a desviar a atenção da
verdade moral. E muito da grosseria da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos
modernos pode ser visto como o último legado dessa maneira puritana de pensar.
Boas maneiras parecem hipocrisia
quando não são uma segunda natureza para você. Você se move nelas
desajeitadamente, como em um conjunto de roupas emprestadas. E então surge o
pensamento peculiar de que, de alguma forma, em algum lugar, preso dentro de
todo esse artifício constrangedor, está o meu eu verdadeiro, clamando para ser
libertado e se mostrar. "coloque tudo para fora", disseram os
profetas californianos, e assim foi. O resultado não foi apenas a perda de boas
maneiras; foi a perda da moral também. O verdadeiro eu, quando finalmente
sacudiu seu tegumento social, revelou-se nada mais que o animal egoísta que a
civilização tentou domar. Na verdade, não era realmente um eu. O "eu"
existe, como Martin Buber nos lembra pungentemente, apenas em relação a um
possível "você" –– um "você" que é o parceiro de um
diálogo, e em cujo olhar estou corrigido. Existem maneiras para tornar esse
diálogo possível.
Oscar Wilde escreveu que, em
questões da maior importância, é o estilo e não a sinceridade que conta. Não
que devamos aprender a ser falsos –– mas que devemos aprender outra coisa, para
que a sinceridade valha a pena. A outra coisa, que Wilde chama de estilo e eu
chamo de boas maneiras, reside na habilidade diminuta de viver e agir para os
outros, de estar em seu olhar e de influenciar e ser influenciado por seu
julgamento. É uma disciplina ao mesmo tempo da alma e do corpo. E se você não o
adquirir em uma idade precoce, existe o perigo de você nunca o adquirir ou de nunca
se sentir à vontade com ele.
Sem essa disciplina, a
sinceridade se torna apenas grosseria. Quem é mais sincero, menos hipócrita, do
que a pessoa que peida e arrota como seu corpo sugere; que jura e amaldiçoa com
a menor irritação; que agarra tudo o que deseja imediatamente, seja comida,
bebida ou sexo; quem está "na sua" para todos e é tão explícito em
suas necessidades quanto um cachorro ou um cavalo? E quem é a melhor prova do
comentário de Wilde? Se é isso que a sinceridade significa, então vamos ser
mais hipócritas. Se sinceridade significa mostrar o que você realmente é, é bom
ser sincero apenas se for bom mostrar o que você é.
A preferência moderna pela
sinceridade em relação à polidez é em parte resultado de um movimento social e
político que remonta ao século XVIII e, em particular, ao igualitarismo da
Revolução Francesa. Os revolucionários se opuseram ao artifício
"desumano" da vida aristocrática, contra as formas elaboradas,
títulos e costumes de uma elite que não acreditava mais plenamente em seu
direito ao poder social e cujos modos rococó pareciam apenas um último esforço
para manter sua distinção e prerrogativas. A Revolução simplificou a
vestimenta, rejeitou a confeitaria da toalete e adotou formas rudes e
intransigentes de tratamento no lugar dos antigos estilos e títulos. Todo mundo
agora era citoyen, palavra que logo
adquiriu o tom irônico de "camarada" no império soviético, quando as
pessoas viram que a destruição dos costumes não era mais do que um prelúdio
para o corte de cabeças.
Apesar da catástrofe moral e
política que se seguiu, algo do desprezo revolucionário pelo artifício
sobreviveu como uma característica permanente da civilização europeia e
americana. Os americanos eram seguidores particularmente leais do ideal
revolucionário. Dickens, depois de sua turnê americana de 1842, descreveu os
americanos como aqueles que rejeitavam o que chamavam de
"convencionalidades fulminantes" do velho mundo opressor, uma vez que
eram "nobres da natureza", que se exibiam cuspindo e agarrando
incessantemente o prato comunal com facas –– facas! –– que eles já haviam
colocado na boca.
Não somos apenas animais; também
somos pessoas –– seres morais, com direitos, deveres e uma necessidade de
conceder e receber respeito. A palavra pessoa vem de persona, portadora de direitos e deveres, termo emprestado do
teatro, onde significa máscara. E, em certo sentido, é correto comparar a
pessoa a uma máscara — aquela que é criada não apenas para os outros, mas
também por eles. O ser moral é a criatura do diálogo, e a polidez é sua maneira
de conquistar um lugar para si na conversa de sua espécie. Portanto, as roupas
também fazem parte dos costumes. Você se veste para os outros e, mesmo que com
isso se torne mais atraente, é a opinião dos outros que o diz.
Os jovens têm plena consciência
do significado social do que vestem e são cuidadosos em sinalizar por meio de
suas roupas o tipo de relação social em que se sentem confortáveis para se
envolver. Quando entrei pela primeira vez em uma sala de aula americana, fiquei
surpreso ao enfrentar uma sala em que as moças eram
todas diferentes, claramente fazendo um esforço para se
destacar, e os rapazes eram todos iguais, devotados a serem discretos, parte de
uma multidão. O símbolo disso é o boné de beisebol. Qualquer pessoa pode
usá-lo, independentemente de sua inteligência, cultura ou físico. E porque
significa apego a uma equipe, o boné reivindica apenas uma proeza vicária e não
faz alarde pessoal em nome do usuário.
É uma nova forma de polidez que
cancela a grosseria de usar boné dentro de casa? Eu ponderei a questão por
muitas semanas antes de concluir que não, não é polidez, mas uma maneira de se
retirar do mundo onde a polidez conta — o mundo onde você é julgado pelo que
parece. Ao adotar a aparência externa de um idiota, o universitário americano
espera garantir que nada será exigido dele. Seus talentos, conversas, aparência
e realizações parecerão surpreendentes e dignos de crédito se surgirem de um
corpo enraizado em tênis e coroado por um boné de beisebol. O boné é seu
refúgio de um mundo que só pode ser negociado com sucesso pelo estilo — apenas
pelas maneiras e graças que nunca lhe ensinaram. E quando, por baixo da tampa,
uma pizza pingando é comprimida em uma mandíbula distorcida no exato momento em
que você está explicando a distinção de Kant entre o sublime e o belo, como
você pode evitar a ideia de que esse garoto foi maltratado pelos pais e
mentores, que ele foi enviado ao mundo adulto em um estado de vulnerabilidade
aguda a um julgamento que ele nada pode fazer para responder ou evitar?
É claro que essa forma simples de
grosseria pode coexistir com um temperamento gentil e uma preocupação real com
os outros. O problema é: como podemos converter esse temperamento em uma
personalidade polida? Pois se não o fizermos, estaremos prestando um grande
desserviço aos jovens. Nós os privamos de algo de que precisam para ganhar a
total confiança e cooperação de outras pessoas –– não apenas de seus íntimos,
mas dos muitos estranhos dos quais dependerão em tudo para sua felicidade.
Um pai que enfrenta esse problema,
enfrenta uma dificuldade aparentemente insuperável: a cultura circundante
parece promover a grosseria como um modo de vida. Os jovens que olham para o
mundo do comércio, por exemplo, não veem nada além de uma corrida louca por
lucros, em que as formas antigas e cavalheirescas de fazer negócios estão
obsoletas e os monstros levam as mercadorias. O relato de Adam Smith sobre o mercado,
no qual o interesse próprio produz por uma mão invisível uma abundância benigna
e ordenada, é imensamente atraente; mas a era de Smith revestia o interesse
pessoal de polidez, e o mercado movia-se com mais suavidade e lentidão. No novo
mundo do comércio, as coisas acontecem rápido demais para os costumes. A vida
comercial parece uma nuvem de átomos zumbindo, na qual uma miríade de
indivíduos solitários trombam e se machucam em busca de alguma vantagem
momentânea.
O símbolo mais marcante deste
novo mundo é o telefone móvel –– talvez
o acréscimo mais eficaz ao repertório de grosseria desde a entrega. Uma pessoa
com um telefone celular nunca está realmente com a empresa que mantém. Mesmo
quando está comendo fora ou visitando, ele está secretamente apegado à sua
própria esfera de ação, a esfera do lucro privado, que pode a qualquer momento
afastá-lo de sua conversa e levá-lo a gritar à distância, negando seus
companheiros e apagando seus pensamentos, com aquele toque de beligerância
característico da grosseria.
Isso não acontece apenas no mundo
do comércio. Recentemente, vi dois jovens estudantes, menino e menina, andando
de mãos dadas por uma rua estreita e deserta em Oxford, as paredes dignas das
faculdades de cada lado delas, um luar pálido de outono brilhando nas pedras.
Há apenas um ou dois anos, esse casal teria feito uma pausa para sussurrar e se
beijar; mas esses dois simplesmente cambaleavam de um lado para o outro,
gritando separados em seus telefones –– um símbolo vívido da separação
essencial dos jovens, uma vez que a graça e a cortesia tenham desaparecido de
suas vidas. E o pior, como toda falha que vem da falta de educação, é que eles
próprios não têm noção do que lhes falta, pois ninguém se preocupou em ensiná-los.
Os seres humanos criam problemas
indefinidamente para si próprios, mas também encontram soluções. Tendo abolido
uma solução, necessariamente criamos outra. As boas maneiras eram uma solução
para os problemas da existência social. Elas permitiram que as pessoas
elevassem-se umas às outras a um plano superior –– um plano em que pareciam
seres espirituais idealizados, abertos à intimidade, mas apenas para aqueles
que estabeleceram um direito. As maneiras encantaram o mundo humano e o
encheram de um mistério agradável: o mistério da liberdade humana.
Em um mundo organizado e
disciplinado por costumes, portanto, estranhos podiam confiar uns nos outros.
Eles não se sentiram ameaçados na rua ou em reuniões públicas; eles negociaram
sua passagem com gestos relaxados e fáceis. Tire as maneiras e o espaço público
torna-se ameaçador, as relações ganham um aspecto provisório e as pessoas se
sentem nuas e expostas.
Em tal situação, as pessoas
começam a se armar com a lei. Acusações de assédio sexual e estupro substituem
as antigas interdições que nem eram ditas, mas obrigavam à obediência. Em todas
as esferas das relações humanas –– trabalho, estudo, romance, até mesmo família
–– os processos judiciais começam a apagar o sorriso. Mas o litígio, causado
pela desconfiança, também o causa: quanto mais as pessoas resolvem suas
disputas por meio da lei, mais se afastam umas das outras e se encerram em uma
solidão adamantina.
Na falta de boas maneiras, a lei
não é o único recurso. Você pode tentar evitar o conflito fingindo que não está
morando entre estranhos. Surge assim um substituto para os costumes que, embora
gere um ideal inferior de vida humana, nos permite evitar o pior de nossos
atritos. Esse substituto é a informalidade. Onde prevalecem as maneiras, as
pessoas ficam a certa distância umas das outras. Eles se mantêm em reserva ––
da mesma forma que o namoro mantém o sexo em reserva. Tal reserva não diminui o
valor da intimidade, mas, ao contrário, aumenta, elevando-a ao nível de um dom.
A perda das maneiras implica que a verdadeira intimidade é cada vez menos
alcançável, visto que cada vez menos existe a condição com a qual a intimidade
é contrastada e da qual ela ganha seu significado. Em vez disso, surgiu uma
pretensão de intimidade, permitindo que as pessoas tratassem umas com as outras
não como estranhos, mas como amigos –– pelo menos até a palavra ou ação que dá
início ao processo.
A familiaridade, então, é tanto
uma ofensa às boas maneiras quanto um substituto para elas, uma maneira de
colocar os outros ao seu lado com a velocidade e a impessoalidade de uma
transação na bolsa de valores. Os negócios modernos, portanto, dependem da
familiaridade. A pessoa que insiste em formas antigas e cortesias está a
caminho da aposentadoria precoce. Consequentemente, no mundo dos negócios e das
profissões, há muita afetação de amizade, porém, pouquíssima amizade.
Paradoxalmente, a perda de boas maneiras, em vez de abolir a hipocrisia, criou
um vasto reino de fingimento.
Onde a presunção de hoje destruiu
o sentimento de vergonha, não podemos nos envergonhar dos maus modos. Mas nos
jovens, a sensação de vergonha muitas vezes vibra logo abaixo da superfície.
Nos jovens, a vergonha não é um mal, mas uma preparação necessária para a vida
social –– um sinal de prontidão para ser corrigido. É, portanto, uma base
poderosa sobre a qual reconstruir as velhas cortesias que melhoram a vida. A
moda jovem de dançar swing e a popularidade dos filmes recentes de Jane Austen,
recriando o mundo cerimonioso onde as maneiras são um espelho da alma, mostram
que os jovens são suscetíveis, até mesmo famintos, pelo encantamento que surge
da formalidade e da distância. Por preceito e exemplo, portanto, pais e
professores ainda podem fazer pelos jovens o que pais e professores
tradicionalmente têm feito –– ou seja, mostrar a eles o caminho lento para uma
intimidade que o caminho rápido nunca pode alcançar.
[2] Alguém que crê que a realidade se reduz a ele e suas sensações.
[3] No alemão, essen, quer dizer “comer” (com polidez), e fressen, “devorar”, comer sem polidez. Na primeira, denota-se certa educação, que só o homem educado pode dar a seus atos; no segundo, simplesmente instintos, que pode se observar tanto nos homens quanto nos animais.

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